ABC SULETRADO

Fê, guê,  lê, mê, nê, rê, si......

Oh! faltou o ji

Depois do guê

Antes do lê


            A,  bê, cê, dê, é, fê,  

Guê, agá, i, ji, lê, mê, 

Nê, ó, pê, quê, rê, si, 

Tê, u(vis), vê, xís, zê

Dáblio,  cá e psilone


Fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si

Meu alfabeto eu canto assim

Sotaque gravado em mim

Insansin, issassim, isso assim 

Ansim, insansin, ansim


Pê rê ó, pró;  fê é  si, fés; si ó sô, rê a rá

Professora 

É  lê é,  lé;  fê a nê;  fan,  tê e,  té

Elefante 

A, rê a, ra, rê a, rá

Arara 

Cê agá o,  chó; cê o có, lê e, jé  tê e i,  tei; rê a, rá

Chocolateira

Chaco-chaco, laco-laco, teé-tei, rê-ará

Rê e, ré; pê e nê, pen; tê i si, tis; tê a, ta


Repentista  alfabetizado 

Gosta de soletrar  Quadrão 

Lá no meu sertão 

Tinha que aprender 

O caboco só lia 

Quando  sabia

Ôto ABC

DERRADEIRO ATO, DERRADEIRA HORA

Não precisa fugir de mim
Estou caindo fora 
A tristeza  que sinto 
Toda vez que me ignora 
Percebo que procuras 
Jeito que eu vá embora
Existem outros lugares 
Longe de onde você mora
Morreu parte de mim
Aquela que te adora
Derradeiro ato
Derradeira hora
Esta é a última vez 
Que que meu coração chora

SEXTILHA DO BELO MONTE

É mais do que dizem
O Biato era muito mais que um homem só
Foi radicalizar os conselhos
Vieram sem piedade nem dó
O sangue sertanejo jorrou
Sangrando o açude de Cocorobó
(Sextilha de Belo Monte)

BEBO PRA NÃO ESQUECER

Maria aguarde
Por favor guarde 
A garrafa do aguardente
Chegarei mais tarde
Vamos queimar o dente
Na boca é brasa que arde
Saliva ardente  
Oxente 
Fogo toma conta da gente
Amor e o álcool na mente
Menina, decente

NOS 10 DE GALOPE NA BEIRA DO MAR

Beira mar, beira mar

O sertão é mais distante

Fica bem mais adiante

Dos que não querem enxergar

Mesmo assim eu vou falar

É coco, cantoria e repente 

Improvisado  da mente 

Centelha  pra detonar 

De prontidão  pra disparar 

Nos 10 de galope na beira do mar


Beira mar,  beira mar,  beira mar

Acompanho a ideia 

No tempo da Pangeia 

O sertão foi beira mar 

Esse coco é pra lembrar 



A seca quando encosta 

Raleia a caatinga

Pouca água na moringa 

O trovão não manda respostas

O sol quente nas costas 

Quintura de rachar

Nem adiantou tentar

O que plantou perdeu 

Nem o milho colheu

Nos 10 de galope na beira do mar


Beira mar,  beira mar,  beira mar

Acompanho a ideia 

No tempo da Pangeia 

O sertão foi beira mar 

Esse coco é pra lembrar 


Procurar um serviço fora 

Pra poder sobreviver

Fiado ninguém quer vender

Difícil ver uma melhora

Maldita a classe que explora 

Vive de parasitar

Se ocupando em governar 

Corrupção e maldade 

Dizem fazer caridade 

Nos 10 de galope na beira do mar


Beira mar,  beira mar,  beira mar

Acompanho a ideia 

No tempo da Pangeia 

O sertão foi beira mar 

Esse coco é pra lembrar 


Pro meu avô era assim 

Também no tempo de papai

Vai e vem, vem e vai

A luta não tem fim

Será assim depois de mim

Muita coragem pra encarar 

O que vier enfrentar

Vai saber o quanto custa

A vida é mesmo injusta 

Nos 10 de galope na beira do mar


Beira mar,  beira mar,  beira mar

Acompanho a ideia 

No tempo da Pangeia 

O sertão foi beira mar 

Esse coco é pra lembrar 


Beira mar, beira mar

O sertão é mais distante

Fica bem mais adiante

Dos que não querem enxergar

Mesmo assim eu vou falar

É coco, cantoria e repente 

Improvisado  da mente 

Centelha  pra detonar 

De prontidão  pra disparar 

Noa 10 de galope na beira do mar



Beira mar,  beira mar,  beira mar

Acompanho a ideia 

No tempo da Pangeia 

O sertão foi beira mar 

Esse coco  é pra lembrar 

ARTISTA EU JÁ NEM ERA

Artista já eu nem era
Só andava com a galera 
Artista eu nem sou
Nem sei pra onde vôo
Artista nunca fui 
Tem horas que  a rima não flui
Com a arte  vivo aprendendo 
Mas não tem meu pé tá doendo
Pião,  proletário
Vivo em busca do salário 
Se me paga, eu produzo 
Networking  é o meu valor de uso
Fetiches da mercadoria 
Quem vai querer mais-valia?
Se é  cada um  na sua 
Grito no meio da rua
Rh  me entrevista 
Sou passado em revista
Na carteira publicado 
O contrato assinado 
A primeira obrigação 
Dignamente ganhar o pão 
O pão de cada dia
E, quando der, fazer poesia.

CONJUGAÇÕES DOS PRETÉRITOS

O  pretérito-mais-que-perfeito 
É anterior ao perfeito 
Se  não passara
Talvez passará
Agora palavra acentuada
Antes de ocorrer o  passado
Uma ação foi passada
Vós foreis
Mais uma vez
Não  estivera
Nem quisereis
De modo e jeito
O pretérito virou imperfeito 
Eu queria
Mas talvez não deveria
Vai-e-volta  a acontecer 
O passado  continuamente 
Conjugando o peito da gente .
Sofrimento e sofrer 
O  pretérito  perfeito 
É  um passado incerto
Passando longe do perto
Duvidoso no subjuntivo 
O mal tá no indicativo
Partindo do pressuposto 
Se supostamente for
Futuro do pretérito  é composto 
Teria esquecido, não fosse o amor.


INÁCIO DA CATINGUEIRA E A MÉTRICA NO REPENTE

Antes de Inácio  da Catingueira, nascido escravizado, a cantoria de repente nordestina  era de rimas simples  A-B-A-B ou A-B-B-A. Nicandro Nunes da Costa, Silvino Pirauá Lima, Francisco Romano Caluete (vulgo Romão do Teixeira ou Romão de Mãe D'água) já vinham divulgando  a arte trazida à região que   compreende o  Pajeú, o Sertão do Moxotó, a Serra de Santana  e Cariri  entre  os  estados de Pernambuco  e Paraíba, resvalando até  o Ceará. Consta  que  foi Agostinho Nunes da Costa e seus filhos Antônio Ugolino Nunes da Costa e Ugolino do Sabugi na metade do século XIX;  Inácio apareceu  já  no último  quarto  do  mesmo  seculo e desenvolveu as métricas, incorporou  a sextilha  e trouxe outras formas de versos rimados ao repente e as quadras iniciais foram  esquecidas. Veio  a geração que trouxe Severino Pinto (Pinto do Monteiro), os irmãos Otacílio  e Lourival Batista (Louro do Pajeú), Aderaldo e  Zé Limeira e no final dos anos 60, início dis 70 veio uma turma disposta e arrojada  trazendo Ivanildo Vila Nova,  Bule-Bule, Pedro Bandeira, Mocinha da Passira, Geraldo Amâncio, Severino Feitosa,  Sebastião da Silva, Oliveira de Panelas e outros. Esta turma foi responsável pela organização coletiva dos cantadores pelo reconhecimento profissional do repentista que tem como marco o Congresso realizado no ano de 1974 na cidade de Campina  Grande na Paraíba .

Hoje se faz reoente em : 

sextilha 

sete linhas ou sete pés;

moirão;

moirão de sete pés;

moirão trocado;

moirão que você cai;

moirão voltado;

décima;

martelo agalopado;

galope à beira-mar;

parcela;

quadrões;

quadrão trocado;

gabinete;

toada alagoana;

meia quadra;

gemedeira;

ligeira

SAMBA JAZZ

Samba no apartamento
com o ar-condicionado 
discretamente ligado 
notas na interseção 
para não fazer barulho 
e não dar variação 
bi, bi-bi, bibibibibibibi,  bobó
bobó, bobó, bobó 
bibibibibibibi, bi-bi, bobó, bobó
bi-bi, bobó 
pra me tirar dessa fossa 
discretamente   vou rimar essa bossa
pois não tenho mais nada a dizer 
a não ser 
que meu samba é de sofrer
um samba triste 
é da minha natureza 
sendo  essa  a beleza 
mais mórbida que existe 
melancólica satisfação 
batendo suave nas cordas do violão 
no banquinho  encosta os pés
toca baixinho pra sentir a santa paz 
nada pode ser de sobressalto 
é novidade no asfalto 
é samba jazz 
onde o swing  jaz.
bi, bi-bi, bibibibibibibi,  bobó
bobó, bobó, bobó 
bibibibibibibi, bi-bi, bobó, bobó
bi-bi, bobó 
melancólica satisfação 
batendo suave nas cordas do violão 
no banquinho  encosta os pés
toca baixinho pra sentir a santa paz
nada pode ser de sobressalto 
é novidade no asfalto 
é samba jazz 
onde o swing  jaz.
bi, bi-bi, bibibibibibibi,  bobó
bobó, bobó, bobó 
bibibibibibibi, bi-bi, bobó, bobó
bi-bi, bobó 

DISTIORÔ

Resta aquela rede 
Que a gente armava 
Deitava e chamegava
E hoje vive pendurada na parede 
Nunca mais me balancei 
Fui olhar pra ela 
De você me lembrei
Emoldurando a janela  
Pensamento   de tal maneira 
Comoveu que me discalquiei 
Danei a pensar besteira 
Chorei, zói disaguou 
Seu retrato permanece na parede
Ao lado do armador da rede 
tal qual  você deixou 
Vou te contar o que mudou 
Minha vida hoje é diferente 
Ninguém mais me vê contente 
Tudo se distiorô
E a goiabeira 
Que dava sombra 
Pra gente armar a rede 
Seca, quase que  morta de sede
Cupinzeiro já fez um povoado 
Todo fruto que fulora  tá bichado
Mas a roseira inda  solta flor 
Mesmo desbotada a cor 
Cheiro pra sentir o perfume 
Hoje colhi um buquê
Como era seu costume 
Se não fosse meu ciúme 
Tava é cheirando você

TORPOR

As dores que mais  doem 
Trituram e corroem
Torturam e destroem 
A carcomida  dor
De forma não fictícia 
Digerem a notícia 
Está morto o amor 
Nada mais necessita ser dito 
O choro abafa o grito
Torpor ..

DESCULPAS

odeio as cartas de amor 
que fiz pra quem não deu valor 
sinto vergonha de mim
por me expor assim 
de um modo insistente 
agora sei
tal qual um crente 
acreditei 
mas chega a hora 
que a ficha cai 
A ilusão vai 
de uma vez embora 
e os versos perdem sentido 
o tempo foi todo perdido 
me sinto besta demais 
por isto te deixarei em paz 
carregando muitas culpas 
A inconveniência agora meço
mais uma vez eu lhe peço 
Um milhão de desculpas

CRÍTICA DA KANTORIA PURA

Poeta que diz ser letrado 

Que  no colégio foi estudado 

Se saiu de lá diplomado 

Vai me responder o que lhe foi perguntado 

Me diga o que Immanuel Kant 

deixou de legado?


Sei do legado de Kant 

Já que pede que eu cante 

Sou enciclopédia ns estante

E lhe respondo nesse instante 

Que no meu ponto de vista 

O filósofo iluminista 

Deixou o  referencial teórico 

Do imperativo categórico 

Como alvo das sensações 

Objetos  gerando impressões.e reconhecido na forma 

Assim diz sua norma 

As impressões ganham sentido 

Se houver sensibilidade 

As coisas do mundo serão  conhecidas 

pras que aconteçam

e apareçam 

Ajustada ao desejo e  a vontade

Espaço e tempo são  propriedades subjetivas 

o comodismo, a covardia e a preguiça 

são forças ativas  

A verdade que a moderna  filosofia burguesa hoje é 

Substrato de Kant, nota de rodapé 

Favorável ou sendo contra 

Nele se encontra 

O universo explicado pelo pensamento 

Não  mais do desvelamento 

No idealismo transcendental 

O aprendido  tem significado parcial 

Sua ética fundamenta-se na razão

Mas não saberíamos de nada 

Não fosse a intuição 

E se não determinar o tempo

Confunde-se o sentido 

o conceito será equivocado

Assim foi respondido 

Conforme me foi perguntado

Demonstrei o que Imanuel Kant 

Deixou de legado.

A DANÇA DA RAÇA

Malandro  e  sambista 
Pé de balcão em  buteco 
Poeta e ritmista
Metido a artista 
Toco cuíca, contra-surdo, pandeiro, Tamborim, caixa tambor 
Também  reco-reco
Maluco esperto 
Não tô de  bobeira 
Ando  prevenido 
E vagabundo não tira partido 
Saio do trampo à tarde com a certeza do dever cumprido
E o corpo dolorido 
Acontece  que desde menino 
Criado em casa de  bamba 
Quem nasce com esse destino 
Não foge do samba 
A noite é curta e o dia é  longo 
No  fim se semana pro Quilombo  a gente  descamba 
Tem roda de jongo  
Balançar o couro pra rima girar
Corpo de borracha 
Língua de mola 
Foi o passatempo 
Que veio de Angola 
E jongo só joga quem sabe jogar 
Quem da sua raiz pode se orgulhar 
Juntar com seu povo pra celebrar
Nunca desistir, insistir, lutar 
Jamais  foi fácil, nem nunca  será 
A história taí para confirmar 
Nada vem de graça se não for buscar 
Vai  ficar sentado vendo o tempo passar 
Dessas amarras nunca vai se livrar 

Aí é  o jongo e foi vovó
Foi a véa Ermina 
Negra gente fina 
Mestrada nas artes da sobrevivência  
Dominou a ciência 
da subsistência  sem  subserviência 
A cabeça nunca abaixou 
Botou tabuleiro, lavou de ganho,também  garimpou
Filha de Santo a vida do terreiro 
Nunca que deixou 
Fechou o meu corpo 
com galho de Guiné , jurubeba e fumaça 
A véa me saravou 
Me ensinou o jongo 
A dança  da raça 
E até hoje no jongo eu estou 
Agrradeço vovó 
Muito obrigado vovó 
adúpé   baba agda


REPENTINO