A REDE DO FAQUIR

Sou da terra da lavoura 
Da mamona e do sisal 
Onde se trabalha muito 
E se ganha muito mal
Onde lajedo não faz cuscuz
Em cacimba não dá mel
Lambe-se sangue de punhal
Na garganta de coronel 
Filho de Ailton Britto  
Do ventre da pró Isabel 
Em Jacobina, um  proscrito
Carrancista de tutano 
Dos que espreme doce do fel
Quando quero dormir
Armo minha rede de faquir 
Eita sertão subestimado 
Nas correntezas do medo
Não se esconde o segredo
Deve ser modificado!
Culpa de quem silencia 
Se treme tode de medo 
Vive que nem gado, marcado
Na coleira da oligarquia.
Vem do tempo da Sesmaria
Catequese, Ave Maria 
Captura,  escravidão 
A história faz a poesia 
Glosa sua indignação 
Vem do Mucambo do Coqueiro 
Esse meu canto primeiro 
Ensinamentos ancestrais
Quem bateu quer esquecer 
Quem apanhou, isso não faz.
Bota coco, põe repente 
Continuo no batente 
Não me calarei jamais

O RISO DO REPENTISTA

 O repentista é um palhaço 
Que tem nervos de aço 
Pra divertir  no trem
Não vendeu, não tem
Tá posto o embaraço 
E nas terras alheia 
Ninguém é de ninguém 
Quem trabalha não passeia 
No cabo do chicote 
Na costura da correia 
Ou se foge no galope 
Ou vai apanhar de peia 
Repente embolador 
É de couro o tamborete
A matraca de Papete
É de Mina o Tambor
E não vai perder o bote
Água fria vem pote
A viola é no aço 
A pisada marca o passo 
Sem remarcar o lote 
Sem consultar a lista 
Pra alegria do palhaço
É só mandar o mote
Pra rima do repentista

2 DE EMBOLADA

— Oi, esse coco
— Que coco tem?
— De imbolada
— Imbola quem?
— Eu e a nega
— Isso num chega?
—Tá pouco ainda
— Quero imbolá
— Seja benvinda 
— Cadê o coco?
— Na imbolada
— Pra embalá
— Eu e você
— Só quero é vê
— Tu me dizê
— Pra onde vai?
— O entra e sai
— Desse chamego
— É que teu nego
— Num toma jeito?
— Tá c’um vontade
— E a liberdade?
— Se faz agora
— A gente tora
— Essa corrente
— Q’ainda prende
—Nosso pescoço
— Lá vem o coco
— Deixa imbolá
—Vamos pra cama
— Se embalá
— Diz que me ama
— Sou de amar

HASB, SSA, 1991

INDICATIVA

Caso tu não retornes Coração baterá fora dos conformes Volte! E outra vez não tornes Fora, de por mim, não dormes  Par comigo sempre formes...